quarta-feira, 1 de julho de 2020

Da minha janela...

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
(Alberto Caeiro)

Estamos em casa. Existe o medo, a insegurança, as adaptações para vivermos assim por um tempo. Sim, vivermos… existe a vida e existem os filhos, que também estão vivendo de uma forma diferente. E quando falamos de infância, falamos de olhares diferentes dos nossos, às vezes singelos, às vezes de uma completude infindável. Como ficam esses olhares, quando olham por aquela janela ali?

Aquela janela que, neste momento, talvez seja o que mais nos conecta ao mundo lá fora. O que se vê dali?

Uma proposta para sensibilizar os nossos olhares pela janela… nenhuma paisagem de uma janela é igual a outra. E nenhum olhar é igual também. Se todos de uma casa olharem pela mesma janela, coisas diferentes hão de observar. 

O texto abaixo é uma costura das falas das crianças - e algumas participações dos adultos - de nossa turma sobre o que veem pelas janelas de suas casas. Uma forma de apresentar uma proposta que foi sendo construída a cada manifestação. Dentro das falas, novas conversas foram surgindo, novos temas… como um pé de manacá que, de aparecer em uma das janelas de um, acabou contando a história de vida de uma vovó de outro. Ou uma nuvem citada aqui, que acabou sendo homenageada em um desenho acolá.

Pode fazer sentido ou pode não fazer… nem tudo precisa fazer sentido “à primeira vista”… 

"Da janela do meu quarto, eu vejo um muro, um céu estrelado e uma linda lua! Mas além desse muro eu vejo vidas! Vejo joaninha, passarinho e até galinha. Vejo um jardim da janela. Consigo ver o pé de manacá. Um macaco comendo banana, uma girafa preguiçosa dormindo, a minha cadela Nina brincando, o morcego espalhando sementes, uma pessoa rezando para o Papai do céu e uma criança brincando na neve.

Janela do quarto, da sala, da mamãe, do prédio… ver o sol, a cidade quando está de manhã... até o entardecer, quando observamos as aves se reunindo em uma árvore no leito do córrego... e quando está de noite parece que a cidade inteira está brilhando… os prédios e as luzes dos prédios… os morcegos… a lua. Sinto a brisa do vento em meu rosto e ouço um cachorro recebendo a sua comida de um motoboy.

Eu vejo um ônibus, que é amarelo. O caminhão de lixo… o de lavar e o que pega a lixeira. Prédios, árvores e o parquinho da rua nova. Dá pra enxergar de onde vem o Papai Noel.

Vejo um arco-íris… e nuvem, que vocês adoram. O corcel… uma casa que o papai esqueceu de pintar. A árvore da felicidade, que eu dei esse nome.

 Eu vejo o reflexo aqui de casa lá na janela. Parece que tem gente morando no nosso lado, no alto, sem precisar de um chão.

É uma janela que nos inspira todas as manhãs…"

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